In front of the mirror: Barthe’s conception of “film-situation”
Resumen
In “En sortant du cinema” (1975), Roland Barthes describes an altered state of consciousness, probably his own, while leaving a movie theatre, additionally depicting the moment that precedes the entrance and that which is lived inside the movie theater.
Using this text as a starting point, in dialog with other works from Barthes and even with some authors that are referenced explicitly in it, such as Freud, Lacan or Brecht, the following brief essay intends to investigate the elements of the cinematic experience for the spectator-Barthes or for the multiple spectator that seems to be summoned to be present in the event.
An experience with unclear limits, a hypnosis with transitory effects, a state of productive passivity, a wish for fusion, a loving distance, an ambivalent affection, these are all contradictory terms that define the “film-situation”.
Keywords
Barthes · Autobiographical writing · Film-situation · Hypnosis
Introdução
Em “En sortant du cinéma”, texto de 1975, Roland Barthes descreve a experiência cinematográfica, tratando um modo preferencial de ir ao cinema, a relação que aí se funda, as suas condições de possibilidade, os efeitos da sessão, as hipóteses de fuga.
Partindo, admissivelmente, da sua própria experiência de espectador, o autor procura caracterizar aquilo que apelida de “situação-cinema”, conceito de difícil delimitação, com epicentro na relação singular que o espectador, ou um certo tipo de espectador, estabelece com o cinema. Este construto conecta-se com outras formulações do pós-estruturalismo, nomeadamente com aquelas geradas na mesma época por autores como Metz (1975) ou Baudry, (1975) e publicadas no mesmo número da revista Communications onde se pode ler este texto. Em comum revelam uma peculiar aliança entre semiologia, psicanálise freudiana e lacaniana e ainda marxismo althusseriano, junção que resulta num discurso sobre o modo como cinema e ideologia se relacionam, como o próprio dispositivo cinematográfico é definidor de uma posição para o espectador, criando modos de espectatorialidade, e como este dispositivo se constitui simultaneamente como um produto social e um modo de funcionamento psíquico.
A “situação-cinema” de que se fala aqui implica um sujeito disponível para se deixar fascinar e envolver num logro, engano que, favorecido pela identificação especular, leva o espectador a imergir na imagem fílmica, a acreditar na sua verosimilhança, anulando qualquer distância e transformando o cinema num espelho narcísico. Barthes compara a experiência com uma hipnose, estado mental que supõe um certo esvaziamento, um abandono, que precede e facilita aquilo que se vai passar na sala de cinema, que é o centro da experiência, mas não o seu início, nem o seu fim. A chave da fascinação encontra-se no escuro da sala, negro que qualifica como anónimo e indiferenciado e que constituiu o fundo sobre o qual a imagem projetada pode produzir a sua perturbação, numa experiência afetiva que se estende para fora da sessão Do lado do filme, a técnica, o som, o mimetismo da imagem em relação ao seu objeto, em suma, a naturalização da imagem fílmica, tudo contribui para o fechamento do espectador numa relação dual. Embora a experiência hipnótica, a fascinação cinematográfica, fundada sobre a identificação especular criadora do imaginário, tenda a prender o espectador, esta pode ser rompida pela introdução de uma distanciação, pela consciência de uma “situação”, que inclui todos os seus elementos, como o som, a sala, a obscuridade, os outros corpos, o artifício da projeção, o espaço e o tempo que antecedem e sucedem a sessão, “situação” que vem contextualizar e complexificar uma “relação”. Uma relação dual é triangulada pela introdução do contexto em que ela própria opera. Contudo, diz Barthes, tal não deixará de constituir uma forma de se deixar fascinar duplamente: pela imagem, que captura um corpo narcísico colado e abandonado ao espelho-ecrã e pelo contexto, que “fetichiza” o que está para além da imagem.
Deste modo, a “situação-cinema” é concomitantemente a relação que um determinado espectador estabelece com a experiência cinematográfica, um estado mental por ela produzido, as condições materiais atuantes, que definem e facilitam a experiência, os seus efeitos para lá da sessão e a predisposição que a antecede.
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Aceptado 2024-09-22
Publicado 2024-09-30















